segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Curso "Condução de Observadores de Aves" para Guias de Turismo em Campo Grande-MS


O canto do sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) dava foi o fundo musical de uma agradável tarde ontem à tarde no Parque do Segredo, durante nossa passarinhada de reconhecimento para as aulas práticas. Foto: Tietta Pivatto 

Essa semana estou em Campo Grande dando o Curso de Condução de Observadores de Aves para os Guias de Turismo da cidade. Antes que eu conte como foi o curso, segue abaixo o texto de divulgação oficial do evento:


Curso “Condução de Observadores de Aves” acontece em Campo Grande esta semana

Texto: Tietta Pivatto | Photo in Natura


Nos últimos anos o Brasil tem testemunhado o crescimento de uma atividade tida como excêntrica para muita gente: a observação de aves. Estas pessoas, munidas de binóculos, câmeras fotográficas, guias de identificação de aves e muita paciência, são vistas nos parques, praças, praias e onde houver a possibilidade de se encontrar um passarinho. Além de observar e fotografar, elas querem saber seu nome e claro, somá-lo à sua lista particular de aves, como se fosse uma coleção de figurinhas.

Mais que uma atividade de lazer, o turismo de observação de aves acontece há décadas em países do Hemisfério Norte, onde movimenta milhões de dólares anualmente em produtos e serviços, e cada vez mais este público vem ao Brasil conhecer algumas das 1.832 espécies brasileiras, muitas delas raras e ameaçadas – as figurinhas mais valorizadas. Mas não são apenas os estrangeiros que procuram essa atividade: os brasileiros estão cada vez mais interessados nela, talvez movidos pelo interesse renovado pela natureza, associado às melhores condições econômicas, já que este é um hobby que demanda equipamentos como binóculos, câmeras, livros e, muitas vezes, viagens a lugares distantes e fora do circuito turístico tradicional.

Mato Grosso do Sul é um dos destinos de maior interesse para a atividade, com mais de 650 espécies catalogadas pelos cientistas. Destinos como o Pantanal, Planalto da Bodoquena e Costa Rica tem atraído cada vez mais observadores de aves, interessados em aumentar suas listas particulares. E estes locais também investem na melhoria da infraestrutura para atender essa demanda, importante em períodos de baixa temporada turística: afinal, um observador de aves precisa de silêncio para poder ouvir seu objeto de desejo.

Além da elaboração das listas de aves, é necessário adequar o local para realizar os passeios bem cedinho, quando é mais fácil observá-las. Tudo isso acompanhado de um guia especialista na identificação das espécies e condução adequada deste turista diferenciado. E nosso Estado ainda possui um número muito pequeno destes profissionais, por isso a necessidade da realização destes cursos de capacitação.

De 27 a 31 de agosto acontece em Campo Grande a terceira edição do “Curso de Condução de Observadores de Aves”, voltado a atender a demanda de guias de turismo de Mato Grosso do Sul interessados nesta atividade. Realizado anteriormente em Bonito (2008) e Miranda (2011), o curso de Campo Grande conta com a parceria do IMASUL, Sindicato dos Guias de Bonito, Sebrae-MS e Fundação Neotrópica, sendo ministrado pela bióloga especialista em aves Tietta Pivatto, da empresa Photo in Natura. Além de guia de turismo especialista em observação de aves, a profissional tem experiência na capacitação de profissionais nesta área específica, sendo uma das principais colaboradoras para a realização anual do Encontro Brasileiro de Observação de Aves em São Paulo.

O objetivo deste curso, além da capacitação dos guias para a identificação de nossas espécies mais comuns em Campo Grande, é de prepará-los para o atendimento do público que vai visitar os nossos parques urbanos, especialmente o Parque Estadual do Prosa, que já possui visitação consolidada e no Parque Estadual Matas do Segredo, que vem se preparando em infra-estrutura e atividades e deverá ser aberto à visitação em breve. É uma forma de envolver a comunidade com atividades ao ar livre, valorizando o privilégio de se morar em uma cidade com quase 300 espécies de aves, como araras, tucanos, bem-te-vis e muitas outras.

Uma primeira visita monitorada ao Parque do Prosa para observar aves acontece neste sábado, dia 01 de setembro. Para mais informações, ligue 3326-1370.


Além de mim e do Vitinho, que fez a foto, tivemos a companhia da professora Marta, mais Greice, Carina e Flávia na visita ao Parque do Segredo. Foto: Victor do Nascimento

domingo, 19 de agosto de 2012

Parque Nacional Serra da Bodoquena - Fazenda Rancho Branco

A estação seca chegou com tudo em nossa região, e é neste momento que percebemos os contrastes da Floresta Estacional, a fisionomia de Mata Atlântica que predomina aqui no Planalto da Bodoquena

Muita gente desconhece que este tipo de vegetação existe: uma Mata Atlântica de interior, que na estação seca perde parte da folhagem da mesma forma que o Cerrado, porém com menos intensidade e com espécies vegetais distintas como a peroba-rosa, gonçalo, castelo, etc. Se na estação chuvosa a vegetação é verde e densa, agora ela está exatamente como seu nome sugere: uma floresta "estacional" (condicionada às diferentes estações do ano) "semidecidual" (perdendo parte da folhagem) ou decidual (perdendo toda a folhagem). Basta uma olhada na paisagem para constatar esse contraste.

A mata que até algum tempo atrás era verde e densa, agora mescla árvores desfolhadas com outras que ainda mantém a folhagem durante a estação seca. Foto: Tietta Pivatto


Uma curiosidade sobre a região: como as matas ciliares estão em área mais úmida, elas permanecem verdes o ano todo e, conforme a altitude aumenta, a vegetação fica mais rala quando a seca avança. É um gradiente muito interessante, que desaparece quando as chuvas retornam. Ou seja, temos duas paisagens diferentes ao longo do ano, ou três, se contarmos as floradas que se alternam ao longo do ano. Neste momento, quem está dando show são os paratudos, pintando tudo de amarelo-ouro.

Paratudos dourando a paisagem na Serra da Bodoquena! Foto: Tietta Pivatto


Isso tudo fica muito confuso se pensarmos que o Planalto da Bodoquena está localizado dentro da região de domínio do Bioma Cerrado. Basta prestar um pouco de atenção para vermos que, afastando-se um pouco das serra, a Floresta Estacional cede espaço para a vegetação de Cerrado. Segundo alguns pesquisadores, nossa Mata Atlântica resiste por aqui graças ao tipo de solo (calcário), relevo acidentado e concentração de umidade. Foi o suficiente para que nossas florestas se diferenciassem dos cerrados da região. E para completar, além de Mata Atlântica e Cerrado, temos também um pouco de influência do Pantanal e do Chaco Paraguaio. Parece confuso? Mas não é. Esse privilégio tem o nome de Zona de Tensão Ecológica, ou Ecótono. Significa que todos esses biomas tem seus limites se sobrepondo por aqui, como um mosaico multicolorido. 

As águas e o calcário da Serra da Bodoquena trazem alguns dos ingredientes que permitem essa paisagem especial. Foto: Tietta Pivatto

De dentro da densa e úmida mata ciliar, avistamos os paredões com a mata seca no topo dos morros. Foto: Tietta Pivatto


Quando olhamos um mapa de vegetação, vemos limites retos e bem definidos. Mas na realidade isso não existe. Na natureza, esses limites acontecem em "degradê", ou seja, a mudança ocorre aos poucos, com a vegetação e a fauna se mesclando para mais ou para menos conforme nos afastamos do centro de dominância de determinado Bioma. E o Planalto da Bodoquena é uma região onde esse "degradê" acontece,  mas com os quatro biomas.



Mas tudo isso só para dizer que hoje fui novamente passarinhar no Parque Nacional Serra da Bodoquena, na Fazenda Rancho Branco, com apoio do ICMBio e companhia do Antonio e da Carol, que pesquisa ariranhas no Pantanal mas não resiste a uma passarinhada! A última vez que estive nesse local foi durante a Avaliação Ecológica Rápida para o Plano de Manejo do Parque, em 2005. Foi um dos locais mais interessantes da Serra que visitamos na época, onde encontramos diversas aves comuns na região e também  algumas raridades como o pavó (Pyroderus scutatus), sabiá-de-coleira (Turdus albicollis) e falcão-caburé (Micrastur ruficollis). E hoje estava especialmente bonito devido às mudanças na paisagem!

Todos atentos à passarada da mata ciliar. Foto: Tietta Pivatto


Hoje identificamos 85 espécies, entre elas pipira-da-taoca (Lanio penicillatus), tiriba-fogo (Pyrrhura devillei), mutum-de-penacho (Crax fasciolata), estalador (Corythopis delalandi) e o trepador-quiete (Scyndactyla rufosuperciliata), que foi registrado pela segunda vez aqui na Serra. Mas para mim o melhor momento foi rever a saíra-viúva (Pipraeidea melanonota), que também não tem muitos registros em nossa região. Pena que não consegui fotos dela...

Um casal de tiriba-fogo (Pyrrhura devillei) namora escondido na vegetação. Foto: Tietta Pivatto


Enfim, uma bela manhã admirando as mudanças na paisagem e apreciando as aves que comprovam essa mistura de vegetação na Serra da Bodoquena!

O gritador (Sirystes sibilator) das florestas estacionais...


 ...as araras-vermelhas (Ara chloropterus) dos cerrados...


 ...e o guaxe (Cacicus haemorrhous) das matas ciliares se encontram nas florestas do Planalto da Bodoquena. Fotos: Tietta Pivatto

A parte triste é que nosso passeio quase foi cancelado devido a um incêndio dentro do Parque, que por sorte foi apagado. A mesma estiagem que traz tantas mudanças também é usada para queimadas em nossa região, afetando não apenas a vegetação, mas também sua fauna e o ciclo das águas. Uma prática que precisa acabar em respeito a todos os seres que vivem nestas florestas estacionais, que hoje possuem menos de 3% de seu território original. 

domingo, 12 de agosto de 2012

Novidades no Spa Sarinho

É sempre assim. Com a aproximação da primavera a bicharada começa a se preparar para o período mais importante de suas vidinhas: reprodução. É hora de buscar parceiros, construir ninhos e tocas seguras para suas crias. Porém antes dessa festa começar, ainda tem muita coisa acontecendo. 

O casal de surucuá-de-barriga-vermelha (Trogon curucui) anda escavando um ninho no cupinzeiro aqui do quintal, mas ainda não o adotaram definitivamente. Foto: Tietta Pivatto

Aqui no Spa Sarinho testemunhamos diariamente as sutis mudanças nos animais que frequentam nosso jardim. As cotias já se mostram mais intolerantes com os da mesma espécie, os passarinhos já cantam com mais frequência, e os teiús, que andavam sumidos hibernando, já estão aparecendo.

O primeiro teiú da nova estação apareceu hoje, tomando posse do seu território. Foto: Tietta Pivatto

A estação seca em nossa região é bem marcada, com uma mudança radical na paisagem. O verde vai aos poucos desaparecendo, água e alimentos ficam escassos. Nessa hora, fontes de água e alimentos como os que oferecemos por aqui podem se tornar verdadeiros oásis para algumas espécies. Evidentemente não devemos exagerar para que eles possam buscar outros alimentos e manter o ciclo natural, visto que muitas plantas dependem deles para também se reproduzirem ou mesmo distribuir suas sementes. Mas neste período eu costumo colocar um pouquinho mais de comida (alpiste, painço, milho, girassol, mamão, banana), sendo que no verão, eu quase não preciso colocar.

A saíra-amarela (Tangara cayana) está sem parceira desde o ano passado. Talvez por isso esteja sempre acompanhada de uma fêmea de sanhaço-cinzento (Tangara sayaca) quando vem se alimentar das frutas do Spa Sarinho. Não é natural, claro, mas esta amizade ameniza a solidão... Foto: Tietta Pivatto

Também vieram os coleirinhos (Sporophila caerulescens), retornando de sua migração. Ano a ano o bando que me visita fica maior, hoje tinha mais de 40 indivíduos disputando grãos com os canários-da-terra (Sicalis flaveola), tico-tico-rei (Lanio cuculatus), tico-tico-do-bico-amarelo (Arremon flavirostris) e rolinhas (Columbina talpacoti e C. squammata). 

O bando de coleirinhas (Sporophila caerulescens) invadiu o Spa Sarinho em busca de grãos, uma algazarra gostosa de observar. Foto: Tietta Pivatto

Jacupembas (Penelope superciliaris) e aracuãs-do-pantanal (Ortalis canicollis), grandes e estrabanadas, também aparecem diariamente. Engraçado ver as escandalosas aracuãs se exibindo discretamente umas para as outras no intervalo da refeição. Penso que já estão anunciando pretensões nupciais, rs...

 Discretamente as aracuãs-do-pantanal (Ortalis canicollis) exibem o leque colorido da cauda, uma forma de comunicação entre o bando. Foto: Tietta Pivatto

O sucesso do Spa Sarinho tem chamado atenção, especialmente pelas fotografias que o Daniel coloca no Facebook (clique aqui para ver algumas). Estes dias recebi a visita do SOS PantanalIASB e TV Morena por aqui, curiosos em conhecer o local. Ficaram encantados em ver a simplicidade da estrutura, que pode ser facilmente replicada em outros jardins Brasil afora, trazendo passarinhos e outros bichos para perto da gente!

 IASB e SOS Pantanal visitando o Spa Sarinho, tudo de bom!!! Foto: Tietta Pivatto

 É assim que os bichos do Spa Sarinho veem nossa casa. E é daquela janela que eu os observo... Foto: Tietta Pivatto 

Porém nem tudo são alegrias. Dias atrás uma gralha-picaça (Cyanocorax chrysops) apareceu com um adorno diferente no bico, bonito até. Brinquei que estava fantasiada de seriema. Porém a brincadeira perdeu a graça assim que me dei conta do mistério: ela estava com um pedaço de SACO PLÁSTICO enroscado entre o bico e o pescoço!! Percebi isso através das fotografias, pois arisca não permitia aproximação. Ainda bem que ela conseguiu se desenroscar, e agora anda tranquila junto com o bando. Mas fiquei bem curiosa para saber onde e como ela  encontrou esse plástico, visto que em casa quase não usamos e somos super severos com relação ao lixo. Fica portanto o alerta, devemos sempre cuidar para que o lixo não se espalhe, especialmente neste período de tantos ventos na região, nunca dá para saber onde vai parar aquela embalagem e nem o que ela pode causar à nossa fauna...

 O interessante adorno no bico da gralha-picaça (Cyanocorax chrysops)...

...é na verdade um pedaço de saco plástico! Sorte que ela já se livrou dele, ufa! Fotos: Tietta Pivatto