segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Acessibilidade - passarinhar é mais que observar aves.

O simpático logotipo da DBA.

Esta semana aconteceu uma discussão muito interessante no Grupo Birdwatching Brasil sobre listas de aves pessoais, ou lifelists. Uma lifelist é a compilação de todas as aves que um observador já viu e registrou durante sua vida de passarinheiro. Para os listeiros (listers) mais convictos, é como se fosse um jogo, onde as principais regras são:

- só as aves efetivamente vistas podem ser registradas
- os top listers são aqueles que mais registros possuem em suas listas (mesmo que nem se lembrem que passarinho é aquele, vale o registro). Quanto mais aves, melhor!
- quem trapacear (marcando ave que não viu) fica desacreditado no mundo birdwatcher para sempre...

Essas regras foram criadas no Hemisfério Norte há várias décadas, quando câmeras fotográficas e gravadores eram artigos raros e só para pesquisadores ou gente com muito poder aquisitivo. No Brasil a atividade é mais recente, iniciada principalmente por pesquisadores, estudantes e fotógrafos, num período em que o acesso a esses equipamentos e à troca de informações é muito mais fácil. Por isso, aqui esse tipo de regra ficou mais flexível, ou seja, já não é mais necessário apenas ver a ave, mas se souber identificar o canto, tá valendo! Então hoje, especialmente em nosso país, podemos ver as listas formadas da seguinte forma:

- aves efetivamente vistas
- aves identificadas apenas pelo canto
- aves fotografadas
- aves registradas em gravação
- aves registradas apenas por evidência (ninhos, carcaças, penas, ovos, etc)
- continua valendo a regra de não trapacear!

No meio dessa discussão conceitual, um dos participantes perguntou: "considerando essa regra tradicional das listas (tem que ver o passarinho), quer dizer que, sendo eu um deficiente visual, porém um reconhecedor exímio dos cantos de aves, não posso ser considerado um "observador de aves"?

E aí??? Podem imaginar como essa questão foi interessante, especialmente por inserir todo mundo numa nova discussão: acessibilidade e inclusão social na observação de aves. Confesso que, embora totalmente favorável à questão, nunca parei para pensar nas dificuldades que um deficiente visual ou qualquer outra pessoa com necessidades especiais pode enfrentar para praticar "observação de aves". Essa questão me fez pesquisar sobre o assunto, inclusive com a preocupação de saber se este blog é acessível a leitores de tela, e descobri que felizmente é sim (obrigada Juan Pablo!!)!

Nos últimos anos esse assunto tem se tornado mais frequente. Cada vez mais as cidades estão se adaptando para que estes cidadãos tenham os mesmos direitos dos demais, seja na educação, cultura, transporte, locomoção com sinalização de ruas e prédios públicos, faixas especiais de segurança, avisos sonoros, etc. Infelizmente o número de cidades adaptadas ainda é ridículo e o preconceito grande, mas aos poucos esse cenário está mudando. Para quem quiser mais informações, os sites Acessibilidade Brasil e Acessibilidade.net têm dicas muito úteis sobre o assunto. (Alô, alô adminstradores públicos, estão atentos à questão??)

Com relação ao turismo, muitas cidades turísticas já possuem estruturas para visitação, como Rio de Janeiro e Gramado. Vejam o site Turismo Adaptado ou o blog do projeto. Aliás, esse poderia ser um ótimo diferencial para quem participa do Projeto Economia da Experiência (alô Bonito, na escuta?), promovido em parceria pelo Ministério do Turismo e pelo Sebrae.

Porém quando falamos em ecoturismo, turismo de natureza e aventura, temos muitas limitações. Poucos locais possuem estrutura adequada e segura que permita acesso aos visitantes especiais, mas já existem propostas bem bacanas como passarelas para cadeirantes (ex. PN Foz do Iguaçu), jardins sensoriais (ex. Jardim Botânico do Rio de Janeiro e Curitiba), e outras adaptações. Vejam mais no site Aventura Especial. Quando se quer fazer, fica fácil...

Jardim Sensorial do Jardim Botânico de Curitiba. Foto: Murilo Cheli

Mas voltando aos passarinhos: acredito que um dos grandes fatores inclusivos tenha sido o avanço da tecnologia. Hoje é possível para quase todo mundo ter acesso a um computador e à Internet para buscar qualquer assunto, entre eles a observação de aves. Porém precisamos que nossos sites estejam acessíveis, ou seja, que sigam as orientações do W3C.

Já pousadas ou sítios turísticos que queiram receber adequadamente este público precisarão fazer algumas adaptações, como trilhas que permitam acesso fácil e seguro para cadeirantes, muletas, andadores, com opção de percursos curtos. Placas escritas em braile, dispostas em altura compatível com um cadeirante e o acompanhamento de guias e monitores treinados já vão ajudar muito todo mundo. Programas especiais também podem ser criados, vejam o site do Disabled Birders Association (DBA, criado pelo Bo Beolens do Fat Birder) na Inglaterra, o artigo sobre Blind Birding do site South Birder ou o Projeto Escutadores de Aves do Centro de Estudos Ornitológicos de São Paulo.

Deficientes visuais partindo para "observação de aves" nos Estados Unidos. Foto: South Birder

E finalmente me dei conta, através de nosso colega deficiente visual, que "observar aves" é uma expressão muito limitada e nada inclusiva. Se quisermos inclusão social, nada melhor do que tornar a palavra "passarinhar" mais conhecida, pois aqui podem se inserir escutadores, observadores e todos os outros admiradores de nossas aves.

Cadeirantes observando aves na Inglaterra. Foto: DBA no site Fat Birder

Da mesma forma que este assunto chamou minha atenção, espero que essas informações possam fazer todos pensarem sobre o assunto, permitindo a muito mais pessoas o prazer de apreciar aves, cada um de seu jeito. Espero que mais oportunidades surjam para que todos tenham o direito de apreciar as belezas (vistas, ouvidas, tocadas, cheiradas, degustadas) da natureza. Neste link você pode ler um artigo interessante sobre acessibilidade em áreas públicas, e neste um novo método de avaliação de acessibilidade.

6 comentários:

Juan pablo disse...

Parabéns! Gostei particularmente pois o Post está recheado de fontes o que o converte numa fonte de consulta interessantíssima para as pessoas e ou instituições que queiram contribuir para ir além da observação das aves apenas com os olhos.
Abraços,
Juan.

Bruno Arantes disse...

Ótimo post, Tietta, adorei conhecer esses programas "alternativos". E vale lembrar que pessoas com necessidades visuais especiais não são só os "cegos". Os idosos que têm perda gradual da acuidade visual e pessoas que foram acometidas por doenças também podem apresentar graus variáveis de deficiência visual. Isso amplia ainda mais a importância dos programas como os "escutadores de aves".
No que diz respeito a tornar nossas páginas acessíveis, é um assunto bem complexo e as "guidelines" do W3C ajudam muito. Uma ferramenta interessante para avaliar a acessibilidade de um site é o Da Silva. Os relatórios são um pouco técnicos demais, mas fornecem informações bastante úteis para os desenvolvedores de sites. Nós usuários de blogs ficamos um tanto limitados à acessibilidade proporcionada pelos templates dos serviços como o Blogger, mas devemos pressionar esses serviços para que considerem critérios de acessibilidade na geração das páginas.
[]s
Bruno.

Andrea Santana disse...

Adorei saber que o assunto acessibilidade está sendo comentado na Observação de Aves. Moro em Ubatuba,Litoral de SP, sou Professora de crianças Especiais que inclui def. visuais, físicos e intelectuais e trabalho em conjunto com o Carlos Rizzo o Projeto Observação de Aves(que acabo de mudar para Projeto Passarinhar). Em nossas saídas a campo já nos preocupamos com a acessibilidade dos alunos.
O contato com a natureza é primordial para o desenvolvimento de diversas áreas sensoriais.
Ainda há muito o que fazer para a inclusão de todos, mas acho que estamos no caminho certo.

Tietta Pivatto disse...

Olá Andrea

Que boa notícia!
O Carlos Rizzo é uma figura fantástica que ajuda a tornar Ubatuba um dos locais mais bacanas para passarinhar. Adorei saber que existe um projeto tão bacana assim já acontecendo por aí, desejo todo o sucesso pra vocês e que ele seja o primeiro de vários neste sentido!

Abraços,

Tietta Pivatto

Agência Acessível disse...

Olá,
Meu nome é Ricardo Shimosakai, e sou o Diretor da Turismo Adaptado citado nessa matéria. Estou escrevendo uma matéria sobre Bonito, onde fui fazer uma visita para preparar o destin na questão da acessibilidade e inclusão, e acabei achando o blog Bonito BirdWatching. Somos também, uma agência de viagem para todos, e estamos preparando um pacote turístico acessível. O site da Turismo Adaptado está parado por questões de problemas com programadores, então estou colocando informações no blog www.turismoadaptado.zip.net
Caso alguém queira entrar em contato, escreva para ricardo36@gmail.com
Abraços!

Tietta Pivatto disse...

Olá Ricardo

Obrigada por atualizar o link do Turismo Adaptado, muito legal seu blog, incluí ele na minha coluna de links. Li sua postagem sobre a CVC, imagino o transtorno causado, e só reforça o meu preconceito contra esta empresa, que pra mim é uma das mais predadoras do mercado. A melhor frase de todas foi esta:

"Seguindo a linha de pensamento da ONU, referente aos direitos das pessoas com deficiência, deficiente é o estabelecimento, que não tem capacidade para levar uma pessoa com deficiência através do serviço que oferecem."

Abraços,

Tietta Pivatto