Um dos milagres mais bonitos que a primavera nos traz é o nascimento de filhotes, sejam mamíferos, aves, insetos ou qualquer grupo animal que nos indica a continuidade da vida, independente das dificuldades.

Urutau (Nyctibius griseus) com filhote, fotografado em um jardim residencial em Bonito/MS. Foto: Daniel De Granville
Estamos quase entrando no verão, época em que parte dos passarinhos já estão deixando seus ninhos, a maioria na hora certa, porém alguns um tanto prematuros e apressadinhos podem cair dos ninhos antes da hora, correndo risco de serem predados por outros animais ou morrer de frio (natural, vida selvagem é assim mesmo).
Mas e aí, devemos ficar olhando o passarinho morrer ou podemos ajudar?
Nós podemos interferir, especialmente nos ambientes já modificados pelo homem, desde que isto não prejudique a ave. Veja as excelentes dicas no Wikiaves sobre como proceder com filhotes encontrados e acompanhe as informações abaixo, fornecidas pelo veterinário Dú Nyari.
1. Se você sabe onde tem um ninho, não o exponha, ou seja, deixe lá escondido, longe de curiosos e sem despertar o interesse de predadores urbanos como gatos ou ratos. Quanto menos você se aproximar, melhor para as aves. Se a temporada reprodutiva for boa, a chance dos pais fazerem novas posturas é grande.
2. Caso o filhote caia do ninho (pode acontecer por causa da chuva, fugindo de predadores, ou tentativa de voo antes da hora), observe por algumas horas à distância. Pode ser que os pais continuem cuidando dele mesmo no chão. Apenas certifique-se que não existe risco (cachorros, gatos, crianças, etc). Não toque no filhote.
3. Caso perceba que o filhote foi mesmo abandonado por já estar lá há algum tempo sem receber comida ou sem observar os pais por perto, procure pelo ninho e tente colocá-lo lá novamente, e acompanhe. Provavelmente os pais voltarão a cuidar dele. Se não for possível alcançar o ninho, deixe-o num galho mais alto da árvore, caixa ou mesmo numa gaiola ABERTA perto do ninho.
4. Caso isso não aconteça, e só então, você decide se vai deixar a natureza agir ou se vai interferir cuidando desse passarinho. Caso decida cuidar, lembre-se te ter o menor contato possível com a ave para evitar que fique mansa, o que pode significar riscos no futuro.
5. Caso o filhote esteja molhado, seque-o e encoste-o em seu corpo para que fique quentinho (dá pra colocar no bolso em alguns casos...) Coloque-a numa caixa de papelão e mantenha a mesma aquecida, para isso deixe uma lâmpada quente acesa perto da caixa (mas não encostada para não correr o risco de queimar) o suficiente para ficar quentinho. Tem que ficar fora da caixa para a luz não incidir diretamente na ave. O aquecimento pode ser feito também com bolsas térmicas ou garrafas pets com água quente.
6. Forre a caixa com pano, ou jornal picado. No caso de filhotes de pica-pau, a caixa pode estar sempre fechada e ter apenas um buraco por onde passar o alimento. Mantenha a caixa fechada e longe de gatos, cachorros, crianças e demais curiosos...
7. Filhotes mais prematuros devem ser alimentados logo que encontrados com Solução Fisiológica e glicose 2,5% (1 ml de Solução Fisiológica com 1/2 ml de glicose), algumas gotas diretamente no bico para hidratar e fornecer energia, independente da espécie, até providenciar alimentação adequada: papa de sementes para os granívoros, papa de frutas para os frugívoros, carne para os rapinantes (não esquecer do cálcio) e assim por diante.

Uma joaninha (Paroaria capitata) alimentando seu filhote no Pantanal. Foto: Daniel De Granville
8. A melhor forma de fornecer o alimento é com o uso de uma seringa pequena cortada na ponta, introduzindo o alimento aos poucos. Observe que este deve estar na temperatura ambiente. Evite contato direto com o filhote, se possível forneça o alimento sem tocar na ave. Para isto basta tocar no bico com a seringa ou ainda com um palito grosso (espetinho de madeira ou hashi).
9. Forneça o alimento de duas em duas horas, mas fique atento para não dar comida demais e sufocar o filhote. É importante acrescentar alguns insetos (grilos, por exemplo) na papinha, pois estes vão fornecer as proteínas que as aves precisam. Também pode ser colocado um pouquinho de carne. Quando o filhote estiver mais crescido, coloque alguns insetos vivos dentro da caixa para que ele possa treinar a captura.

Pica-pau-velho (Celeus lugubris) cuidando do filhote em Bonito/MS. Foto: Daniel De Granville
10. Observe se há espaço na caixa para que o filhote estique suas asas e consiga treinar o voo, e quando já estiver totalmente emplumado, permita que faça pequenos voos em algum lugar protegido para fortalecer sua musculatura. Se tudo der certo, em alguns dias ele poderá voar sozinho.
Mas lembre-se, o importante é interferir o mínimo possível, tomando este tipo de atitude só em último caso. Se julgar que não terá tempo ou condições de cuidar de um filhote abandonado, peça ajuda a um veterinário ou leve o filhote para um Centro de Recuperação de Animais Silvestres. E jamais caia na tentação de prendê-lo em casa. Além de ser proibido por lei, lugar de passarinho é na natureza. Denuncie caso veja alguém destruindo ninhos ou capturando filhotes

Quem já viu um filhote de quero-quero (Vanellus chilensis)? Foto: Daniel De Granville
Caso tenha mais alguma dica sobre como cuidar de filhotes nestas condições, deixe uma mensagem.
Agradecimentos: Dú Nyari, João Marcelo da Costa, Wikiaves

2 comentários:
Oi Tietta tudo bem??
Então primeiro parabéns pelo trabalho!!!!
Só gostaria de acrescentar uma coisa... Em caso de óbito do animal o que vcs fazem??
Pergunto isso, pois seria legal colocar um adendo para que quando isso ocorrer as pessoas encaminharem o indivíduo para alguma instituição.. Como Universidades e principalmente Museus !!!!
Existe mta informação que é jogada fora por conta disso...
Isso serve ñ só para filhotes caídos de ninhos.. + para todo animal que é encontrado morto por janelas, atropelados etc... pensem nisso
Abraço
Gustavo Henrique Silveira
Olá Gustavo
Boa observação, obrigada!
Bem, quando os filhotes são encaminhados para clínicas veterinárias, CRAS/CETAs ou zoológicos, estes já fazem o encaminhamento adequado. Acredito que apenas espécies raras ou ameaçadas são aceitas em Museus ou Universidades, principalmente pela dificuldade em se obter a origem do animal.
Mas no caso de um cidadão comum, este deve procurar contato com Museus ou Universidades, mas nem sempre é um caminho fácil por conta do que coloquei acima.
Na prática acaba que a maior parte dos bichos que morrem acabam indo mesmo para o aterro sanitário, ou enterrados nos jardins das casas...
Se eu tiver mais informações sobre isso vou colocar aqui, ok?
Obrigada,
Tietta
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