segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Observando aves no Boca da Onça Ecotur

2009 já está acabando, mas ainda dá tempo de contar aqui as últimas passarinhadas do ano... Uma delas foi no Boca da Onça Ecotur, onde estive entre os dias 15 e 18 deste mês realizando um inventário de avifauna, primeiro passo para compor o roteiro de observação de aves do empreendimento.

O Boca da Onça já é famoso na região por sua cachoeira de 156 metros, a maior de Mato Grosso do Sul, por suas trilhas e demais atividades. Seu relevo é fantástico, ficando na borda do vale do rio Salobra, nas proximidades do Parque Nacional Serra da Bodoquena. Com isso a fazenda de 2000ha e quase metade da vegetação conservada ou em recuperação é um ambiente muito interessante para quem gosta de observar aves. Em breve teremos mais novidades sobre este assunto!

Cachoeira Boca da Onça, a maior de Mato Grosso do Sul, observada da outra margem do rio Salobra. Foto: Tietta Pivatto

Mas vamos ao que interessa: passei quatro dias lá, acompanhada pelo Marcel e o Osmiro, dois monitores que participaram do curso de observação de aves que ministramos aqui em Bonito em outubro de 2008. No primeiro dia caminhamos por uma estradinha interna que alternava paisagens de cerrado, cerradão, mata seca e campos de pastagens. Nessa época do ano recebemos a visita de muitas espécies que não ficam por aqui durante o inverno, como o peitica, bem-te-vi-pirata, bem-te-vi-rajado, peitica-de-chapéu-preto, suiriri, tesourinha, guaracava-de-crista-branca e o sovi, todos vistos nessa primeira manhã, além de outras aves interessantes como seriema, saíra-de-chapéu-preto, arara vermelha, surucuá-de-barriga-vermelha, arapaçu-do-cerrado, arapaçu-do-campo, pica-pau-de-topete-vermelho, acauã, gavião-da-cauda-branca, gavião-pernilongo, gavião-fumaça, bico-de-pimenta, pintassilgo, saíra-azul, beija-flor-de-garganta-preta, etc... Foram mais de sessenta espécies logo nessas primeiras horas!

Um peitica-de-chapéu-preto (Griseotyrannus aurantioatrocristatus), espécie observada durante a primavera e o verão na região da Serra da Bodoquena. Foto: Tietta Pivatto

À tarde caminhamos pela trilha dentro da mata seca (Floresta Estacional Semidecidual Submontana), cheia de sabiás e também pitiguari, vivi, anambés, pipira-da-taoca, araçari-do-peito-castanho e, na borda da mata, um ninho de caneleiro-chapéu-preto e um casal de enferrujado que nem se importou com nossa presença.

No segundo dia fomos para a mata ciliar, e aí vimos guaxe, figurinha-de-rabo-castanho, saíra-de-papo-preto, juruviara, saí-andorinha, jacutinga, canário-do-mato, pichito, limpa-folha-de-testa-baia, pica-pau-velho, pipira-preta, anu-coroca, estalador, arapaçu-grande e muito mais, com destaque para o grande número de udus-de-coroa-azul dando show no meio da mata.

Aqui cabe uma historinha de terror... O dia amanheceu prometendo chuva, então decidi abandonar minha pochete (adoro pois fico com todos os equipamentos sempre à mão) por uma mochila que ganhei do Daniel (que ganhou de um turista) e, segundo ele, era à prova-d'água, tipo estanque. Deixei a câmera e o i-Pod no bolso externo e o resto (microfone, gravador, pilhas, cantil, capa de chuva e meu guia de aves brasileiras do van Perlo novinho) dentro da mochila. Depois de algumas horas, ao procurar pilhas para a câmera, descobri que era mesmo estanque: meu cantil vasou e molhou TUDO o que estava dentro dela, parecia um aquário com meu livro boiando lá dentro, ahhhhh!!!!!! Por sorte nada se perdeu, mas recomendo a mochila, uma Hidra Light da Seattle Sports , é realmente eficiente, tanto de fora como de dentro! ;-). Agora do cantil, não posso falar muito...

Foi para registrar esse lagarto da floresta que descobri a mochila encharcada de água... Foto: Tietta Pivatto

À tarde voltamos à mata ciliar para registrar, entre outras, o gibão-de-couro, gralha-cancã, carão e, no caminho, uma ema com muitos filhotes (vimos três ninhadas diferentes ao longo dos quatro dias), um casal de arara-azul e um gavião-pato voando baixo, muito legal!!

Ema (Rhea americana) passeando com sua ninhada de dez filhotes nos campos da Fazenda Boca da Onça Ecotur. Foto: Tietta Pivatto

Na manhã seguinte fomos para a trilha da pedreira, um trecho da fazenda que já foi muito desmatado mas que agora, por iniciativa do atual proprietário, está em recuperação, sendo muito bonito e parte do roteiro de montain bike do sítio turístico. Pra quem gosta de pedalar, vale a pena! Nesta área vimos papagaios-verdadeiros e curica, periquitão-maracanã, pica-pau-verde-barrado, curicaca, maçarico-solitário, perdiz, chupim-azeviche, risadinha, sebinho-olho-de-ouro e o mais interessante, um casal de falcão-morcegueiro ou cauré que fizeram um ninho no oco de uma árvore bem alta, em frente a um açude cheio de libélulas. De tempo em tempo um deles descia, pegava uma libélula em pleno voo e depois levava para dentro do ninho, provavelmete para alimentar os filhotes. Nem preciso dizer que ficamos um tempão assistindo essa cena, não é?

Um cauré (Falco rufigularis) flagrado enquanto caçava libélulas em um açude da fazenda. Foto: Tietta Pivatto

À tarde andamos pelas imediações da sede, pomar e horta, onde vimos tiziu, canário-da-terra, tico-tico-do-campo, asa-de-telha, periquito-rico, sabiá-do-campo, chupim, pássaro-preto e outras aves sinantrópicas. Nem foi preciso sair da sede para ver passarinho!

Seriema (Cariama cristata) chamando nossa atenção enquanto o filhote fugia para o outro lado. Foto: Tietta Pivatto

Na última manhã do trabalho voltamos à mata ciliar para registrar o tico-tico-do-mato, juriti, ariramba, fura-barreira, uirapuru-laranja, soldadinho e outras mais. No fim da manhã, quando achei que o inventário estava terminado, vem o gerente todo animado me chamar para ver o urubu-rei que estava pousado ali, pertinho das casas... E teve ainda garça-grande, garça-maguari, maçarico-pernilongo e carcará.

Foram quatro dias ótimos que renderam 195 espécies, sem contar o pavó, o gavião-real e o socó-boi-escuro, já registrados no Boca da Onça Ecotur mas que eu não vi desta vez... Em março estarei de volta para continuar o inventário, quem sabe não será dessa vez?

Gavião-real (Harpia harpja) observado na Fazenda Boca da Onça Ecotur em setembro de 2008. Foto: Boca da Onça Ecotur

E pra não falar apenas em aves, nestes dias vimos anta, tamanduá-bandeira, tamanduá-mirim, macaco-prego, lobinho, lontra (comendo um peixe na beira do rio Salobra), tatu-peba e capivara. Porém a cena mais incrível foi a que um lindíssimo lobo-guará nos proporcionou. Na manhã do terceiro dia (trilha da pedreira) vimos uma vaca recém-parida nervosa protegendo o bezerrinho, ainda todo ensaguentado. Mais adiante estava o lobo, que pelo visto desistiu de pegar o bezerro, mas assim que viu um casal de seriemas, começou a correr e a perseguir uma delas. A cena foi a seguinte: seriema correndo desesperada, o lobo atrás, e a outra seriema correndo atrás dos dois. Precisa dizer mais? A seriema correu muiiiito e conseguiu escapar do lobo, que então fez xixi num tronco caído e sumiu na mata. Esta é a primeira vez que vejo lobo-guará em MS, os outros que eu vi foram todos em Minas Gerais, especialmente no Parque Nacional Serra da Canastra.

Uma parada para xixi: lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) após a perseguição mal sucedida a uma seriema (Cariama cristata). Foto: Tietta Pivatto

Enfim, quando estiver em Bonito ou no Pantanal de Miranda, dê uma esticadinha até Bodoquena para visitar o Boca da Onça Ecotur para uma passarinhada!

3 comentários:

Luiz Álvaro disse...

sensacional o seu relato, fiquei babando com tanta variedade. Ainda vou para a Boca da Onça, no bom sentido.

Camila Hareide disse...

Mulher, que loucura de post! Tanta bicharada! Eu fui na Boca da Onça e não vi NADA! MAs amei o lugar, boa pedida pra voltar!

beijo
Camélia

PS - Papai Noel já saiu mesmo! Deve chegar logo!

Tietta Pivatto disse...

Oi Camila!

É assim mesmo, a maioria das pessoas entra no mato ou passeia na praça e nem se dá conta de tanto passarinho à sua volta. Por isso que a observação de aves é uma atividade tão bacana, pois desperta sensibilidades que a gente nem desconfiava possuir... Tenho certeza que quando o sol voltar aí nessa terra você vai perceber uma quantidade enorme de aves maravilhosas também!!!

Beijos,

Tietta