Há algum tempo eu andava curiosa pra saber quantas espécies de aves eu já tinha visto na natureza. Muitas delas estão perdidas para sempre nas minhas memórias, mas algumas marcaram muito a alegria de observar uma ave.
Desde a infância eu já gostava de passarinho, mas sem o entusiasmo atual, resultado da convivência com meu avô, um típico gaioleiro, que sempre me convocava para ajudar a limpar gaiolas. Confesso que uma ou duas vezes eu acabei libertando alguns daqueles canários, deixando meu avô p. da vida (alguém já viu um espanhol enfurecido? Então sabe do que estou falando, hehe...). Mas como eram aves prisioneiras, que nunca tinham aprendido a procurar comida, acabavam voltando, para minha decepção...
O pássaro preto (Gnorimopsar chopi) é uma das minhas lembranças mais antigas, dos tempos do meu avô... Foto: Daniel De Granville Durante a faculdade fiz um estágio no Parque Ecológico Tietê, onde tive meu primeiro contato com a ornitologia pela bióloga Rosemary Pitelli. Lá descobri o Helmut Sick, Dalgas Frisch e outros autores. Também aprendi a identificar minhas primeiras aves, pois até então eu conhecia apenas o pássaro-preto, joão-de-barro, pomba, pardal, bem-te-vi, bico-de-lacre e urubu. As férias em Caraguatatuba também guardam algumas lembranças como um pica-pau-do-campo que um dia apareceu no quintal, e eu nunca tinha visto bicho mais lindo. Também tinha bandos de polícia-inglesa que usavam o capim na praia, o casal de coruja-orelhuda que morou algum tempo numa árvore da casa vizinha e muitos maçaricos e gaivotas que, claro nunca vou conseguir lembrar quais eram...
Talvez o fato de ter trabalhado por cinco anos em estudos de meio levando alunos para conhecer zoológicos, entre outras atividades, tenha contribuído para enriquecer meu aprendizado. Mas até então as aves eram uma beleza distante, pois meu foco profissional era o ecoturismo. Aprendi a reconhecer também gavião-carijó, sanhaço-cinzento, maria-cavaleira, garças, periquitos, maracanãs, irerês e jaçanãs, além das aves que via nos zoos, como galo-da-serra, gralhas, tuiuius, emas, avestruz, calaus, pelicanos e outras, misturando nativas com exóticas.
Em dezembro de 1997 fui trabalhar no Refúgio Ecológico Caiman, onde pela primeira vez descobri o turismo de observação de aves. Claro que de início eu fui aprendendo as mais comuns como garças, curicacas, marrecas, joão-pinto, araras, periquitos e outras. Com o tempo, o que era apenas um conhecimento básico, ficou um pouco mais rico, aumentando o número de espécies que eu era capaz de reconhecer. Depois disso, fizemos uma viagem de bicicleta pelo Nordeste onde conheci mais algumas espécies novas como o maravilhoso guará da Ilha do Caju, mas elas ainda estavam fora do meu foco principal.
O guará (Eudocinus ruber) foi uma das aves mais belas que conheci durante nossa viagem de bicicleta pelo litoral nordestino em 1999. Foto: Daniel De GranvilleNo final de 1999 viemos para Bonito, onde conheci o udu, guaxe, surucuá e outras aves comuns nas trilhas dos sítios turísticos onde trabalhei como guia de turismo. Foi nessa época que comecei a me aproximar mais das aves, em parte por causa do trabalho que o Daniel desenvolveu na Estância Mimosa e também pelos primeiros trabalhos de consultoria ambiental que fizemos por aqui. Havia demanda de ornitólogos na região, e acabei me direcionando para esta atividade. Aos poucos fui aprendendo a identificar espécies mais difíceis como tiranídeos, chocas e parulídeos, com ajuda do "padrinho" Fernando Straube. Nessa época resolvemos juntar tudo o que sabíamos sobre as aves da região e aí publicamos um artigo com aves do Planalto da Bodoquena. Ao mesmo tempo, meu interesse pela observação de aves aumentou e também resolvi focar meu mestrado nesse tema. Também contei com a ajuda de vários colegas nessa etapa, como Alyson Melo, Fernando Straube, Martha Argel e outros passarinheiros. A dissertação gerou quatro artigos:
- Recomendações para minimizar impactos à avifauna em atividades de turismo de observação de aves
- Perfil e viabilidade do turismo de observação de aves no Pantanal Sul e Planalto da Bodoquena (Mato Grosso do Sul) segundo interesse dos visitantes
- Infra-estrutura receptiva para o turismo de observação de aves no Pantanal Sul e Planalto da Bodoquena, Mato Grosso do Sul
- O turismo de observação de aves no Brasil: breve revisão bibliográfica e perspectivas
Devido aos trabalhos de consultoria comecei a ter listas de aves mais organizadas, e aí ficou mais fácil identificar este material. Desse período também são os artigos Nova contribuição à ornitologia do Chaco Brasileiro (Mato Grosso do Sul, Brasil) e Aves da Fazenda Santa Emília, Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Para os inventários técnicos contei com a grande ajuda da Fernanda Melo, com quem aprendo muito sobre as aves do Cerrado. Em breve outros artigos serão publicados com as aves da região, com os resultados de outros trabalhos que venho desenvolvendo.
Enfim, esta semana resolvi vasculhar minhas antigas lembranças e anotações e montar minha lista pessoal, ou lifelist. A partir da lista oficial as aves brasileiras, comecei a marcar todas aquelas que eu lembrava ter aprendido na época do estágio no Parque Ecológico do Tietê e também as que eu já conhecia antes disso. Depois fui marcando tudo o que eu tinha registrado em listas e inventários até os dias de hoje. Infelizmente muitas aves ficaram esquecidas, sem contar aquelas que eu tenho lembrança visual mas que não consigo ter certeza se foram observações em cativeiro ou não. Assim, ficaram de fora... Ao mesmo tempo, tenho espécies marcadas que foram vistas apenas uma ou duas vezes, mas eu eu sei que vi. Acho que isto deve ser comum nas grandes listas de birdwatchers profissionais, como os biggest twitchers, não é?
Bom, chega de enrolar... Minha lista tem hoje 528 espécies!! Confesso que eu mesma não tinha ideia da quantidade que, embora esteja ainda longe das grandes listas dos observadores e ornitólogos mais experientes, me deixou feliz e com uma enorme vontade de ampliar esse número em futuras visitas a outras regiões e uma busca mais detalhada aqui no Planalto da Bodoquena e arredores, onde ainda tem muito passarinho que eu não vi...
O campainha-azul (Porphyrospiza caerulescens) é um dos meus últimos lifers, quer dizer, uma espécie nova para minha lista, observada em março deste ano na Serra do Tombador/GO. Foto: Fernanda MeloE você, já montou sua birdlist? Não é uma competição, mas é uma forma legal de entendermos o quanto já aprendemos com essa atividade tão gostosa de praticar! Veja algumas dicas aqui.


2 comentários:
Fácil pra quem ta começando ir atualizando aos poucos, em vez de listar 500 de uma vez hehe
Faz tempo que tenho vontade de listar as aves que eu já observei.
Pra variar você estimulando o meu pessoal aqui de SC (e eu, claro - hehehe).
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