

Aves da Serra da Bodoquena Mato Grosso do Sul - Brasil





A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?
É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar! voar! ... “
Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...
Olavo Bilac
Do livro: Poesias Infantis, Ed. Francisco Alves, 1929, RJ
A ilustração desta postagem eu peguei no Blog Recanto dos Pássaros, dedicado à poesia e outras palavras das aves.
Este mês tem sido de muita correria. Quando não estou no meio do mato procurando passarinho, estou na frente do computador escrevendo relatórios sobre passarinho... Mas finalmente encontrei tempo para contar sobre minha última viagem a campo, desta vez para as RPPNs Gavião de Penacho e Vale do Bugio, localizadas na Serra de Maracaju em Corguinho/Mato Grosso do Sul. Participei de uma AER (Avaliação Ecológica Rápida), junto com as equipes de Botânica, Mastofauna e Herpetofauna, para compor o Plano de Manejo das Reservas. Foram sete dias muito bacanas e com boas surpresas.
Olha a equipe aí: Tietta (avifauna), Samuel (herpetofauna), Vivian (botânica), Iara (assistente herpetofauna), Fátima e Elessandra (RPPN Gavião de Penacho), Maurício (mastofauna) e Pedro (assistente avifauna). Foto: Pedro Hardt
Vista a do Vale do Bugio a partir do mirante da RPPN Gavião de Penacho na Serra de Maracaju em Corguinho/MS. Foto: Tietta Pivatto
As duas RPPNs são vizinhas de cerca, quer dizer, de penhasco... Paredão acima está a Gavião de Penacho, no fundo da furna está a Vale do Bugio. As duas juntas protegem quase 160 ha de matas nativas. Sua localização, a meio caminho do Pantanal do Rio Negro, também é um convite para quem pretende passarinhar na região, pois dá pra observar aves na Serra de Maracaju, seguir para o Pantanal e ainda finalizar a aventura na região de Bonito. Nessa rota temos pelo menos quatro grandes falconiformes para procurar: gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), águia-chilena (Buteo melanoleucus), gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) e gavião-real (Harpia harpyja), sem contar as muitas outras aves interessantes possíveis de se observar.
Criada em agosto de 2006, possui 77 ha de área preservada (16,6% da propriedade). Está situada na borda da escarpa, ou seja, na parte alta domina o cerrado e as paisagens abertas e, quando chegamos nos mirantes da Reserva, podemos ver o mar de mata semidecidual no fundo do vale. Incrível!! O nome da RPPN já deixa no ar a promessa de uma eventual avistagem dessa ave de rapina...

Um casal de araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) que diariamente visita a sede a RPPN Gavião de Penacho. Foto: Tietta Pivatto
Foram 114 espécies em três dias de inventário, entre elas arara-azul (Anodorhynchus hyacintinus), gavião-da-cauda-branca (Buteo albicaudatus), jacupemba (Penelope superciliaris), choca-do-planalto (Thamnophilus pelzeni, endêmica do Brasil), a visitante do sul guaracava-de-crista-branca (Elaenia chilensis, ex albiceps) e o belíssimo soldadinho (Antilophia galeata, endêmico do cerrado).

O gavião-da-cauda-branca (Buteo albicaudatus) sobrevoando a Reserva. Foto: Tietta Pivatto
Um dos momentos mais bacanas foi ao anoitecer, quando parte da equipe estava sentada no mirante celebrando o por-do-sol e eu aguardando para corujar, quando espontaneamente ouvimos os chamados da murucututu (Pulsatrix perspicillata). Todo mundo parou para admirar aquele som grave e, mesmo sem conseguirmos vê-la, o momento foi perfeito!

O que este anambé-branco-de-máscara-negra (Tityra semifasciata) está fazendo na Serra de Maracaju? Foto: Tietta Pivatto
Por fim, no último dia, assisti a uma curiosa disputa por ninho. Um casal de joão-de-barro (Furnarius rufus) construía seu ninho quando, em uma das buscas por barro, um casal de jandaias-estrelas (Aratinga aurea) chegou e se apossou do ninho inacabado. O casal construtor chegava perto com barro para continuar a obra, mas quem disse que as jandaias deixavam? Estavam lá, curtindo a nova casinha com vista para o vale... Por fim, depois de muita "argumentação", elas finalmente desistiram e o joão-de-barro conseguiu voltar à construção.

Olha só o joão-de-barro (Furnarius rufus) reinvidicando seu ninho inacabado ao casal de jandaia-estrela (Aratinga aurea) que tomou posse do lugar... Foto: Tietta Pivatto
A Reserva Ecológica Vale do Bugio tornou-se RPPN em agosto de 2003, e sempre teve como objetivo principal conservar a natureza especial do lugar. Com 81,75 ha (86% da propriedade), está situada no fundo do Vale do Bugio e sua vegetação é uma surpresa para quem está acostumado com as paisagens da região. Completamente úmida, árvores com mais de 20 metros, muita samambaia, musgos, liquens e córregos de água cristalina brotando dos paredões que a cercam. Olhando pra cima, se vê a borda da escarpa que limita a propriedade com a RPPN Gavião de Penacho. Os alojamentos simples, literalmente dentro da mata, propiciam um contato muito forte com esse ambiente tão inusitado.

Visitando uma fenda formada por paredões de rocha na RPPN Gavião de Penacho, repleto de ninhos de andorinhões. Foto: Pedro Hardt
Foram 83 espécies em três dias de inventário, um número interessante se considerarmos a fisionimia única de Floresta Estacional Semidecidual. Destaque para o vôo dos urubus-rei (Sarcoramphus papa) e do casal de araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) sobre a floresta, tiriba-fogo (Pyrrhura devillei), novamente o canto grave da murucututu (Pulsatrix perspicillata), o limpa-folha-de-testa-baia (Philydor rufum), estalador (Corytopis delalandi), os endêmicos do cerrado chorozinho-de-bico-comprido (Herpsilochmus longirostris) e o soldadinho (Antilophia galeata).

Limpa-folha-de-testa-baia (Philydor rufum) nos observando da copa das árvores. Foto: Tietta Pivatto
E claro, o gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), que estava dentro do ninho. Novamente a equipe toda (não tem jeito, observar aves é tão legal que todo mundo é seduzido, hehe) subiu o morro íngreme para poder observar o ninho de um ponto e uma distância que não incomodasse o gavião. Maravilhoso...
Em 2006 o Daniel ficou uns dias nessa RPPN fotografando o ninho com filhote. Porém, desde aquela vez, segundo informações do proprietário, o casal nunca mais foi visto junto, o que é uma triste notícia e pode significar a morte do macho, muito provavelmente pela intolerância de algumas pessoas com esse predador tão eficiente, não apenas de animais silvestres que fazem parte de sua cadeia alimentar, mas também de comportamento oportunista ao ver galinhas, cabritos, porquinhos etc desprotegidos. Perde a natureza e todos aqueles que não puderam ver um casal tão lindo interagindo para criar os filhotes...

O gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) alimentando o filhote em 2006. Foto: Daniel De Granville
E eu não poderia deixar de relatar a situação mais "engraçada" da viagem... Além do flagrante em um casal de curiangos (Nyctidromus albicollis) cuidando de seus dois pequenos filhotes, a mata estava cheia de joão-corta-pau (Caprimulgus rufus), enchendo o ar com seu canto característico. Passadas algumas horas, eles pararam de cantar. Porém, lá pelas duas horas da manhã, um único ser resolveu mostrar seus dotes vocais exatamente embaixo de nossa janela, ou seja, acordou todo o acampamento... Levantei com a lanterna para ver o bicho, mas é claro que ele voou antes de eu conseguir focá-lo e foi cantar do outro lado do alojamento... Nem preciso dizer que naquela noite ninguém dormiu, né?
Enfim, foram dias ótimos, três novas espécies para minha lifelist (526 espécies) e mais informações que vão ajudar a compor o Plano de Manejo das duas RPPNs. Agora é aguardar a finalização deste documento e o início da visitação turística para quem quiser ver muitas aves interessantes entre Campo Grande e o Pantanal...

Um casal de maracanãs-nobres (Diopsittaca nobilis) deixando o ninho feito na borda da RPPN Vale do Bugio. Foto: Vivian Ribeiro