sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O pássaro cativo - Olavo Bilac


Recebi esta poesia de uma amiga, tem tudo a ver com observação de aves. Afinal, para quem gosta de passarinho, não tem nada pior do que o egoísmo de uma gaiola...


O Pássaro Cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,

A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar! voar! ... “

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...

Olavo Bilac

Do livro: Poesias Infantis, Ed. Francisco Alves, 1929, RJ

A ilustração desta postagem eu peguei no Blog Recanto dos Pássaros, dedicado à poesia e outras palavras das aves.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Observando aves na Serra de Maracaju

Lá vem uma postagem longa pra compensar os vários dias sem atualização...

Este mês tem sido de muita correria. Quando não estou no meio do mato procurando passarinho, estou na frente do computador escrevendo relatórios sobre passarinho... Mas finalmente encontrei tempo para contar sobre minha última viagem a campo, desta vez para as RPPNs Gavião de Penacho e Vale do Bugio, localizadas na Serra de Maracaju em Corguinho/Mato Grosso do Sul. Participei de uma AER (Avaliação Ecológica Rápida), junto com as equipes de Botânica, Mastofauna e Herpetofauna, para compor o Plano de Manejo das Reservas. Foram sete dias muito bacanas e com boas surpresas.


Olha a equipe aí: Tietta (avifauna), Samuel (herpetofauna), Vivian (botânica), Iara (assistente herpetofauna), Fátima e Elessandra (RPPN Gavião de Penacho), Maurício (mastofauna) e Pedro (assistente avifauna). Foto: Pedro Hardt

A Serra de Maracaju está dentro do Corredor de Biodiversidade Maracaju-Negro e é uma região muito interessante. Geograficamente divide o Mato Grosso do Sul em planalto e planície pantaneira, e a erosão de suas rochas areníticas resultaram em lindas paisagens. Mais do que isso, abriga um mosaico de vegetação ainda pouco conhecido, e o mesmo pode-se dizer de sua fauna. Enquanto no alto da serra predomina o cerrado, nas furnas (nome regional para os vales entre os penhascos) estão os remanescentes de Florestas Estacionais Semideciduais que, em alguns trechos são tão úmidas que nos sentimos no meio da Mata Atlântica! Imperdível para quem mora no Estado e está acostumado apenas com as matas secas do cerrado...


Vista a do Vale do Bugio a partir do mirante da RPPN Gavião de Penacho na Serra de Maracaju em Corguinho/MS. Foto: Tietta Pivatto

As duas RPPNs são vizinhas de cerca, quer dizer, de penhasco... Paredão acima está a Gavião de Penacho, no fundo da furna está a Vale do Bugio. As duas juntas protegem quase 160 ha de matas nativas. Sua localização, a meio caminho do Pantanal do Rio Negro, também é um convite para quem pretende passarinhar na região, pois dá pra observar aves na Serra de Maracaju, seguir para o Pantanal e ainda finalizar a aventura na região de Bonito. Nessa rota temos pelo menos quatro grandes falconiformes para procurar: gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), águia-chilena (Buteo melanoleucus), gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) e gavião-real (Harpia harpyja), sem contar as muitas outras aves interessantes possíveis de se observar.

RPPN Gavião de Penacho

Criada em agosto de 2006, possui 77 ha de área preservada (16,6% da propriedade). Está situada na borda da escarpa, ou seja, na parte alta domina o cerrado e as paisagens abertas e, quando chegamos nos mirantes da Reserva, podemos ver o mar de mata semidecidual no fundo do vale. Incrível!! O nome da RPPN já deixa no ar a promessa de uma eventual avistagem dessa ave de rapina...


Um casal de araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) que diariamente visita a sede a RPPN Gavião de Penacho. Foto: Tietta Pivatto

Foram 114 espécies em três dias de inventário, entre elas arara-azul (Anodorhynchus hyacintinus), gavião-da-cauda-branca (Buteo albicaudatus), jacupemba (Penelope superciliaris), choca-do-planalto (Thamnophilus pelzeni, endêmica do Brasil), a visitante do sul guaracava-de-crista-branca (Elaenia chilensis, ex albiceps) e o belíssimo soldadinho (Antilophia galeata, endêmico do cerrado).


O gavião-da-cauda-branca (Buteo albicaudatus) sobrevoando a Reserva. Foto: Tietta Pivatto

Um dos momentos mais bacanas foi ao anoitecer, quando parte da equipe estava sentada no mirante celebrando o por-do-sol e eu aguardando para corujar, quando espontaneamente ouvimos os chamados da murucututu (Pulsatrix perspicillata). Todo mundo parou para admirar aquele som grave e, mesmo sem conseguirmos vê-la, o momento foi perfeito!

Outra grande novidade foi termos registrado por lá um anambé-branco-de-máscara-negra (Tityra semifasciata), ave até então com distribuição conhecida apenas para a região amazônica. Essa descoberta reforça a importância de se ir a campo saber que passarinho tem por lá, pois às vezes podemos ter grandes surpresas que podem estar fora dos livros.


O que este anambé-branco-de-máscara-negra (Tityra semifasciata) está fazendo na Serra de Maracaju? Foto: Tietta Pivatto

Por fim, no último dia, assisti a uma curiosa disputa por ninho. Um casal de joão-de-barro (Furnarius rufus) construía seu ninho quando, em uma das buscas por barro, um casal de jandaias-estrelas (Aratinga aurea) chegou e se apossou do ninho inacabado. O casal construtor chegava perto com barro para continuar a obra, mas quem disse que as jandaias deixavam? Estavam lá, curtindo a nova casinha com vista para o vale... Por fim, depois de muita "argumentação", elas finalmente desistiram e o joão-de-barro conseguiu voltar à construção.


Olha só o joão-de-barro (Furnarius rufus) reinvidicando seu ninho inacabado ao casal de jandaia-estrela (Aratinga aurea) que tomou posse do lugar... Foto: Tietta Pivatto

RPPN Vale do Bugio

A Reserva Ecológica Vale do Bugio tornou-se RPPN em agosto de 2003, e sempre teve como objetivo principal conservar a natureza especial do lugar. Com 81,75 ha (86% da propriedade), está situada no fundo do Vale do Bugio e sua vegetação é uma surpresa para quem está acostumado com as paisagens da região. Completamente úmida, árvores com mais de 20 metros, muita samambaia, musgos, liquens e córregos de água cristalina brotando dos paredões que a cercam. Olhando pra cima, se vê a borda da escarpa que limita a propriedade com a RPPN Gavião de Penacho. Os alojamentos simples, literalmente dentro da mata, propiciam um contato muito forte com esse ambiente tão inusitado.


Visitando uma fenda formada por paredões de rocha na RPPN Vale do Bugio, repleto de ninhos de andorinhões. Foto: Pedro Hardt

Foram 83 espécies em três dias de inventário, um número interessante se considerarmos a fisionimia única de Floresta Estacional Semidecidual. Destaque para o vôo dos urubus-rei (Sarcoramphus papa) e do casal de araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) sobre a floresta, tiriba-fogo (Pyrrhura devillei), novamente o canto grave da murucututu (Pulsatrix perspicillata), o limpa-folha-de-testa-baia (Philydor rufum), estalador (Corytopis delalandi), os endêmicos do cerrado chorozinho-de-bico-comprido (Herpsilochmus longirostris) e o soldadinho (Antilophia galeata).


Limpa-folha-de-testa-baia (Philydor rufum) nos observando da copa das árvores. Foto: Tietta Pivatto

E claro, o gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), que estava dentro do ninho. Novamente a equipe toda (não tem jeito, observar aves é tão legal que todo mundo é seduzido, hehe) subiu o morro íngreme para poder observar o ninho de um ponto e uma distância que não incomodasse o gavião. Maravilhoso...

Em 2006 o Daniel ficou uns dias nessa RPPN fotografando o ninho com filhote. Porém, desde aquela vez, segundo informações do proprietário, o casal nunca mais foi visto junto, o que é uma triste notícia e pode significar a morte do macho, muito provavelmente pela intolerância de algumas pessoas com esse predador tão eficiente, não apenas de animais silvestres que fazem parte de sua cadeia alimentar, mas também de comportamento oportunista ao ver galinhas, cabritos, porquinhos etc desprotegidos. Perde a natureza e todos aqueles que não puderam ver um casal tão lindo interagindo para criar os filhotes...


O gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) alimentando o filhote em 2006. Foto: Daniel De Granville

E eu não poderia deixar de relatar a situação mais "engraçada" da viagem... Além do flagrante em um casal de curiangos (Nyctidromus albicollis) cuidando de seus dois pequenos filhotes, a mata estava cheia de joão-corta-pau (Caprimulgus rufus), enchendo o ar com seu canto característico. Passadas algumas horas, eles pararam de cantar. Porém, lá pelas duas horas da manhã, um único ser resolveu mostrar seus dotes vocais exatamente embaixo de nossa janela, ou seja, acordou todo o acampamento... Levantei com a lanterna para ver o bicho, mas é claro que ele voou antes de eu conseguir focá-lo e foi cantar do outro lado do alojamento... Nem preciso dizer que naquela noite ninguém dormiu, né?

Enfim, foram dias ótimos, três novas espécies para minha lifelist (526 espécies) e mais informações que vão ajudar a compor o Plano de Manejo das duas RPPNs. Agora é aguardar a finalização deste documento e o início da visitação turística para quem quiser ver muitas aves interessantes entre Campo Grande e o Pantanal...


Um casal de maracanãs-nobres (Diopsittaca nobilis) deixando o ninho feito na borda da RPPN Vale do Bugio. Foto: Vivian Ribeiro

sábado, 24 de outubro de 2009

<- 350 CO2 - Dia Internacional da Ação Climática

Parece um código esquisito, né?

Mas significa a meta máxima de partículas de dióxido de carbono que, segundo os cientistas, a atmosfera pode aguentar sem que nosso mundo entre em colapso. O problema é que já estamos em 387ppm (partes por milhão). O que significa isso? É só ligar a tv e ver as tempestades exageradas, secas em época errada, calota polar derretendo, o mundo todo virando do avesso. E não me venham dizer que isso faz parte dos ciclos naturais, pois não dá mais para tapar o sol com a peneira. Existem estudos técnicos e científicos suficientes para comprovar que o mundo muda sim, mas num ritmo muito mais organizado do que está acontecendo agora. Temos todos nós uma parcelinha de culpa nisso.

Queimada na Serra do Japi, Jundiaí/SP em 2008. Um patrimônio natural virando cinzas. O Brasil é campeão mundial em geração de CO2 por queima de florestas. Foto: Daniel De Granville

O que fazer? Apoiar ações como a do Blog Action Day e a do 350.org, mas muito mais do que isso, fazer nosso papel de formiguinha. Pequenas atitudes do nosso dia a dia que podem nos ajudar a melhorar nosso mundo. Espalhar essa informação e cobrar dos nossos governantes ações responsáveis.

Terra devastada no entorno do Parque Nacional Foz do Iguaçu. Foto: Daniel De Granville

Queimada de cana em Sonora, MS. Precisa mesmo botar fogo? Foto: Daniel De Granville

Juro que minha próxima postagem será sobre os passarinhos da Serra de Maracaju, mas eu não podia deixar de me manifestar justamente hoje, quando milhares de pessoas pelo mundo todo estão fazendo a mesma coisa...

Pantanal em chamas. O que acontece com os filhotes que não escapam do fogo? Foto: Daniel De Granville

Para saber como foi o evento, clique aqui.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Blog Action Day 2009

Entre uma postagem e outra, o Bonito Birdwatching está participando deste movimento incrível que é o Blog Action Day. Nem preciso dizer que passarinho tem tudo a ver com isso, né?

Como podemos mudar o mundo através de um blog? Leiam esse texto da Camila Hareide, está maravilhoso e explica tudo direitinho. Deu até preguiça de pensar em algo mais para completar, mas digo aqui: mudanças climátivas vão afetar muito nossas queridas aves, seja no descompasso entre oferta de alimentos e nascimento de filhotes, secas prolongadas, tempestades exageradas, degelo, desaparecimento de vegetações, alteração das correntes marítimas, etc, etc...

Para quem quiser saber mais, assista o vídeo disponível no Youtube.

Os pinguins já estão sofrendo os efeitos do aquecimento global devido ao derretimento do gelo e também das mudanças nas correntes marítimas, que empurram cada vez mais para longe os grandes cardumes dos quais se alimentam. Foto: Daniel De Granville

Faça sua parte, divulgue essas informações e, caso seja blogueiro, participe deste movimento. E o mais importante, todo mundo, vamos mudar nossas atitudes com relação ao meio ambiente!! Ah!! E hoje também é o Dia Nacional do Consumo Consciente!

E pra quem acha que isso é assunto de gente grande apenas, visite o delicioso site The Animals Save the Planet e assista aos vídeos, são ótimos!!